Mística da Não-Violência Ativa

não violência ativaEmbora haja místicas diferenciadas que sustentam o processo de construção da paz, todas elas têm de alguma ou outra forma elementos comuns que convergem justamente na contraposição a todo tipo de violência, numa opção explícita e irrenunciável por métodos não violentos.

A não-violência é o meu primeiro artigo de fé e é também o último artigo do meu credo” (Mahatma Gandhi).

Face à imensa pluralidade e fragmentariedade das experiências vitais, características do assim chamado mundo “pós-moderno”, evidencia-se hoje um crescimento na busca de religiosidades, espiritualidades ou místicas que ajudem a dar profundidade e consistência a projetos e a compromissos pessoais e coletivos: muitas pessoas e grupos percebem que não se pode viver, indefinidamente, no vaivém das “ondas” do imediatismo e da superficialidade consumistas ou do ativismo desgastante (e não poucas vezes alienador).

Uma coisa fica clara: não dá mais para “navegar” em meio às tempestades e aos ventos que sopram em todas as direções sem “âncora”, sem roteiro e sem bússola! Todos, implícita ou explicitamente, reconhecem a urgência de abastecer-se com os meios suficientes para atingir os objetivos traçados e assim desembarcar num porto seguro. Dentre esses meios, destaca-se o cultivo de uma espiritualidade ou mística que anime e sustente o percurso.

Espiritualidade e mística

Sem especularmos demais sobre as possíveis diferenças qualitativas existentes entre religiosidade, espiritualidade e mística, podemos lembrar algumas particularidades destas duas últimas, de tal forma que possamos compreender melhor a sua importância fundamental para as pessoas e os grupos engajados nas lutas de transformação social.

Espiritualidade não tem nada a ver com a clássica dicotomia (separação radical) grega da matéria e do espírito. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, “espiritualidade” não diz respeito a uma dimensão superior (espírito ou alma) contraposta a outra supostamente inferior (matéria ou corpo). Mais bem, a espiritualidade revela o que de mais profundo e dinâmico possui uma pessoa: suas motivações maiores e últimas, sua utopia, sua paixão, seu projeto de vida, a força pela qual vive e luta e com a qual contagia outras pessoas. É aquilo que perpassa toda a identidade e a ação de um ser humano!

Ora, a “espiritualidade” não é algo privativo das pessoas “religiosas”: todas as pessoas, mesmo as que se declaram atéias ou agnósticas, são movidas, no seu agir, por uma espiritualidade que as torna justamente mais humanos. Daí que perder ou descuidar essa dimensão de ‘profundidade’ humana é desumanizar-se, embrutecer-se... E essa é uma das maiores tragédias dos nossos tempos materialistas e consumistas!

Por outro lado, mística diz respeito àquela profundidade que determina a identidade e a ação das pessoas e que possui um caráter de ‘mistério’, de não esgotamento, de algo que permanece sempre indecifrável, como a fonte da qual é difícil determinar a nascente exata, embora a sua existência e benefícios sejam evidentes no jorrar de água e de vida. A essa fonte todos podem ter acesso quando descem ao nível mais profundo de si mesmos, quando captam a profundidade da realidade e quando se sensibilizam diante do Outro, dos outros e da grandiosidade, complexidade e harmonia do universo.

Segundo dois grandes teólogos (Frei Betto e Leonardo Boff), a mística significa “o conjunto de convicções profundas, as visões grandiosas e as paixões fortes que mobilizam pessoas e grupos e movimentos na vontade de mudanças, inspiram práticas capazes de afrontar quaisquer dificuldades ou sustentam a esperança face aos fracassos”.

Em poucas palavras, podemos dizer que a mística é a própria vida tomada em sua radicalidade e extrema densidade.

Não-violência ativa

As pessoas e grupos que lutam pela construção de uma cultura de paz não são imunes ao cansaço, ao desânimo e à tentação da desistência na árdua tarefa de prevenção e enfrentamento das violências. Sendo que o objetivo maior (a paz) que eles têm como horizonte de luta possui dimensões bastante amplas, os ‘peacemakers’ (construtores de paz) precisam alargar a sua busca e sua vivência de uma mística profunda que os sustente no seu compromisso transformador da violência. Quer dizer, não existe “a” mística da paz, mas meios diferentes (complementares e convergentes) que podem constituir-se em místicas variadas que contribuem, também em forma diversa, para a construção da paz. Assim, dependendo dos contextos culturais, sociais e geográficos, das matrizes religiosas ou espirituais e dos focos de ação podemos falar, por exemplo, em mística dos povos indígenas, em mística do cuidado ambiental, numa mística com acento eco-feminista, numa mística da ética na política, numa mística dos direitos humanos, em mística cristã, etc. Todas elas contribuindo, em graus e modos diversos, para a construção da paz.

Contudo, embora haja místicas diferenciadas que sustentam o processo de construção da paz, todas elas têm de alguma ou outra forma elementos comuns que convergem justamente na contraposição a todo tipo de violência, numa opção explícita e irrenunciável por métodos não violentos. Ou seja, todas elas se nutrem duma matriz comum que aqui poderíamos chamar de não-violência.

Cabe ressaltar que a não-violência não se identifica com passividade diante da injustiça ou da violência diferenciadas como caminho para a paz; tampouco é sinônimo de contra-violência (oposição à violência através de meios violentos). Ela é mais bem uma estratégia de mudança pessoal e social. Ela é ativa, porque move para, fundamenta e fortalece a ação transformadora. A partir dela, rejeitamos categoricamente toda forma de passividade e, igualmente, toda violência, substituindo esta pela força da verdade, da justiça e do amor. “A perspectiva da não-violência ativa é ver e analisar as injustiças em todas as suas dimensões: lutar para conquistar a justiça e libertar não apenas as vítimas, mas também aqueles que são responsáveis pela violência, tanto o oprimido como o opressor”.

Mística da não violência ativa

Embora Mahatma Gandhi tenha dado um grande impulso ao que poderíamos chamar de “mística da não-violência ativa” (e que ele definia como ‘satyagraha’, força da verdade ou força da alma), é justo reconhecer que, houve pessoas e grupos humanos que antes dele sustentaram as suas lutas em métodos de inspiração não-violenta e outros, depois dele, aplicaram os princípios por ele explicitados a contextos, necessidades e lutas diferentes. Por isso, precisamos reconhecer que “as” místicas da não-violência ativa (NVA) se alimentam na espiritualidade e na prática de culturas e grupos indígenas e negros, orientais e ocidentais, cristãs, religiosos, políticos, sócio-ambientalistas, não-religiosos (e não por isso, não-espirituais) e até ateus.

Contudo, sem sermos exaustivos, podemos reconhecer em todas essas vertentes de mística da NVA algumas linhas gerais que as identificam, precisamente, como de inspiração não-violenta e ativa, quando as pessoas e os grupos por elas inspirados:

- Agem a partir de um processo criativo, poderoso e eficaz para encarar e resolver conflitos.
- Buscam quebrar a espiral da violência e criar opções para uma alternativa mais humana.
- Fundamentam sua espiritualidade na fé num Deus (ou em um elemento superior e transcendente) não-violento.
- Reconhecem que o sentido último da existência humana radica na capacidade de amar e de ser amados.
- Procuram acabar com todo tipo de divisão e exclusão, transformando tudo o que separa os seres humanos de si mesmos, dos outros e da Terra.
- Buscam, antes de tudo, a verdade do oponente bem como a própria.
- Reconhecem que todos, de alguma ou outra maneira, podemos reagir violentamente devido a feridas causadas por violências já sofridas em carne própria, mas também podemos agir a partir de uma dimensão profunda, do mistério e do sagrado que habita e perpassa tudo e todos.
- Vivenciam essa mística numa perspectiva permanente de transformação pessoal e coletiva.
- Conseguem experimentar e testemunhar a passagem (transformação) espiritual (entendido o espiritual no sentido mais amplo do termo) do medo, do desespero e da ganância rumo à compaixão, o equilíbrio e a integridade.

CEJUPAZ