Entre o chão e as nuvens

12º Intereclesial das CEBs"É necessário reconhecer, no contexto do XII Intereclesial das CEBs, o esforço de tantos cristãos que, enraizados no chão da desafiadora realidade do nosso continente e justamente a partir das comunidades eclesiais de base, tentam ser coerentes com a natureza irrenunciável da fé cristã que exige e conduz à transformação/libertação da existência humana toda e de todas as dimensões da vida social".

Completaram-se já dois anos do “furo” informativo que revelou o que aconteceu nos bastidores da V CEMLA, especialmente no que diz respeito ao processo de aprovação do texto final de Aparecida e da publicação do documento oficial: vários textos significativos do documento, que tinham sido aprovados pela Assembléia, foram posteriormente modificados, recortados, ‘ajeitados’ conforme visões teológicas e pastorais que não representavam o espírito dos textos originais. Mas isso ficou a descoberto, cumprindo-se assim o que o evangelho diz: “Não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a se tornar conhecido" (Mateus 10.16b). Também a própria história da Igreja já demonstrou, mais de uma vez, que quando as portas são trancadas, o Espírito foge pelas janelas!
Mutilado ou não, em poucas linhas, o documento oficial de Aparecida não recolheu, entre outros, textos preciosos que foram votados pelos bispos, como este: “enraizadas no coração do mundo, são espaços privilegiados para a vivência comunitária da fé, mananciais de fraternidade e de solidariedade, alternativa à sociedade atual, fundada no egoísmo e na competição impiedosa” (núm. 193 do texto votado na Assembléia).
Contudo, a experiência passada e a vida atual das CEBS extrapolam, e com muito, os arranjos textuais de Aparecida. Por isso, elas continuarão a inspirar-se nas orientações da Evangelii Nuntiandi, nos posicionamentos de Medellín, na confirmação de Puebla (e ainda nos acenos de Santo Domingo), mesmo que alguns pretendam fazer também desses textos “arquivo morto”!
A esse respeito, neste momento, não podemos deixar de lembrar o saudoso Paulo VI: [as comunidades eclesiais] “nascem da necessidade de viver mais intensamente ainda a vida da Igreja; ou então do desejo e da busca de uma dimensão mais humana do que aquela que as comunidades eclesiais mais amplas dificilmente poderão revestir, sobretudo nas grandes metrópoles urbanas contemporâneas, onde é mais favorecida a vida de massa e o anonimato ao mesmo tempo. Elas poderão muito simplesmente prolongar, a seu modo, no plano espiritual e religioso o culto, o aprofundamento da fé, a caridade fraterna, a oração, comunhão com os Pastores e a pequena comunidade sociológica, a aldeia, ou outras similares. Ou então elas intentarão congregar para ouvir e meditar a Palavra, para os sacramentos e para o vínculo da ágape, alguns grupos que a idade, a cultura, o estado civil ou a situação social tornam mais ou menos homogêneos, como por exemplo casais, jovens, profissionais e outros; ou ainda, pessoas que a vida faz encontrarem-se já reunidas nas lutas pela justiça, pela ajuda aos irmãos pobres, pela promoção humana etc.” (EN 45).
Também, por questão de justiça, é preciso recordar que neste continente (inclusive muito mais do que em outras latitudes), as CEBs têm contribuído enormemente no esforço de implementação do Vaticano II no contexto da América Latina.
Paradoxalmente, em contraposição às CEBs, as novas comunidades eclesiais que acentuam a dimensão vertical da ‘cidadania do céu’, por seu desarraigo cultural e estrutural, relutam a inserir-se numa autêntica pastoral de conjunto, contribuindo para a importação de devoções e espiritualidades que pouco ou nada tem a ver com a realidade latino-americana.
Apesar da explícita desvalorização das CEBs por parte de muitos ‘novos’ agentes de pastoral (incluídos muitos padres e bispos) e de vários desses ‘novos’ movimentos eclesiais (o que infelizmente fortalece a tendenciosa redução das CEBs a um simples ‘movimento’ ou a uma ‘pastoral’ a mais) é necessário reconhecer, no contexto do XII Intereclesial das CEBs, o esforço de tantos cristãos que, enraizados no chão da desafiadora realidade do nosso continente e justamente a partir das comunidades eclesiais de base, tentaram ser coerentes com a natureza irrenunciável da fé cristã que exige e conduz à transformação/libertação da existência humana toda e de todas as dimensões da vida social.
Apesar da crise (que, como bem sabemos, pode ser uma oportunidade preciosa de revisão e crescimento) que atinge as comunidades eclesiais de base, acreditamos que o Espírito e a história terminarão revelando o que hoje muitos querem ignorar ou esquecer: que as CEBs continuam vivas, mantendo uma fidelidade única à integralidade do Evangelho, no seguimento de Jesus Cristo e na construção do Reino. E que, com a graça de Deus e a teimosa esperança dos cristãos nelas engajados, continuarão a ser uma verdadeira referência de fé viva e comprometida para este mundo solitário, individualista e alienante em que vivemos!

Combonianos do Brasil Nordeste