Surpreso comigo mesmo
Junho 2009 / Vou contar uma experiência que tive num desses dias. Pra falar a verdade, tinha decidido não contar, porque se trata de algo não tão... nobre assim. Mas, afinal, é coisa que toca a vida de todos nós.
Então, estava eu na cidade quando precisei me desapertar. E fui aos banheiros do Metrô, melhor chamados de sanitários. Preocupado, porque já sabia o que me esperava e não querendo sofrer como outras vezes. Infelizmente, minha previsão estava certa. Encontrei uma fila de homens nas minhas mesmas condições. Dava para ver. De tanto apertados, chegavam a brigar, até xingando quem demorava nos banheiros, melhor dito sanitários. Eu ficava calado, mas dentro de mim xingava o prefeito que tinha tido a infeliz idéia de reduzir o espaço dos banheiros masculinos, para dar lugar aos banheiros femininos, porque os que elas tinham antes foram fechados. Sem dúvida, agora as mulheres também devem estar muito incomodadas.
Por que o cara fez isso? Será que fez negócio com o espaço que sempre foi reservado para as mulheres? Nem na hora de satisfazer a necessidade mais natural do corpo os pobres têm vez? Aposto que o cara nunca desceu pra ver a situação. Imagino sua mansão com vários e bonitos sanitários, que os ricos chamam de toalete. A minha raiva cresce. Raiva também deste povo em fila esperando uma vaga, brigando entre eles, e ficando calados diante da autoridade.
Bem ou mal, resolvi meu pequeno problema. Voltando para a rua, fui atraído por cantos e gritos que não sabia de onde vinham. Até aparecer um cortejo, com bandeiras e faixas. Via-se logo que era gente humilde: homens, mulheres, crianças. Alguns deles me convidaram a me juntar. Nunca tinha feito isso na minha vida. Até criticava esses desordeiros que, vez por outra, criavam problemas no trânsito. Mas, como já disse no meu papo do mês passado, há coisas mudando dentro de mim. Assim, entrei na turma, acolhido como amigo. De mãos dadas fui andando e juntando minha voz à deles. Soube que se tratava de um protesto contra o despejo de suas casas, porque a prefeitura precisava do terreno. Mais uma vez ela, a prefeitura, tirando o espaço debaixo dos pés dos pobres! Minha indignação crescia e meu grito saia mais forte. Ficava triste ao ver que o pessoal que estava na rua não dava a mínima para nós.
Pra dizer a verdade, agora que estou aqui sentado no meu banquinho, eu me maravilho de mim mesmo. Não me reconheço mais, de tanto mudado. Mas não me arrependo, muito pelo contrário! Agora entendo e gosto daquele lema: povo unido, jamais será vencido! Pena que acordei de velho! Mas melhor tarde do que nunca.
Boa noite para você que me escutou. Faço votos que amanhã você e eu acordemos à realidade do nosso povo e à necessidade de somar forças na luta por mudanças desta nossa sociedade tão injusta.



