Saindo do rebanho

Autor do texto: 
Banquinho do Jâmpio

Maio 2009 / “Bem vindo Wilson! Muito bem vindo!”
Minha saudação surpreendeu o amigo. “O que está acontecendo com você, Jâmpio? Você sempre me recebeu com cordialidade, mas desta vez foi acima do normal”.
“Não reparei, mas entendo. Todas as vezes que você vinha sentar neste banquinho, dois sentimentos se debatiam dentro de mim: a alegria de encontrá-lo e poder assim desabafar um pouco meus pensamentos; no mesmo tempo,  certo desgosto porque estava chegando a rádio-problemas. Você entende em que sentido: você sempre tem algo pra questionar, pra protestar.
Eu queria terminar o dia tranqüilo, vendo o mundo em paz e você me levava em alto mar. A novidade é que algo mudou dentro de mim. Por isso minha acolhida foi mais calorosa.Eu estava relembrando o que me aconteceu hoje. Conto logo. Estava de pé  no ônibus superlotado, quando uma mulher começou a levantar a voz com o motorista, criticando sua maneira de dirigir aos solavancos. `Não somos gado!´ gritava. Ninguém lhe dava bandeira. Aliás, muitos olhavam para ela constrangidos, hostis. Tempo atrás, eu teria feito a mesma coisa. Mas desta vez foi diferente Sem nem refletir escutei minha voz que gritava: `Ela está certa! Merecemos respeito´. Senti o calor subir nas minhas faces. Abaixei o olhar, sentindo sobre mim os olhares condenatórios dos passageiros. A minha indignação cresceu ao ouvir alguém que, ao descer do ônibus, gritava: `Obrigado motorista, obrigado cobrador`. Depois fui ao banco e entrei na fila privilegiada dos idosos. Infelizmente estava bastante comprida. A uma certa altura, alguém da interminável fila dos não privilegiados  levantou a voz: `Por quê não põem mais caixas?´ Ninguém piou. O cara repetiu mais vezes a pergunta de protesto. Todos pareciam ovelhas.  Inesperadamente apareceram mais três caixas e o serviço começou a rolar mais rápido. Você acha que alguém agradeceu o cara? Nem olhavam para a ele. Ai,  mais uma vez me surpreendi com minha voz gritando: `Obrigado amigo!` Entendeu agora, Wilson? Deve ser por isso que o recebi com mais calor. Sinto que nosso companheirismo cresceu. Tenho a certeza de que você me transmitiu um pouco do seu espírito de coragem diante das coisas erradas que acontecem, principalmente com o povo mais pobre”.
“Parabéns, Jâmpio! Mais um que saiu do rebanho e que se comporta como cidadão”, exclamou Wilson apertando minha mão e me abraçando. “Quando seremos muitos a gritar, ninguém poderá fechar os ouvidos;  e os mandões deverão tirar seus pés de cima do povinho. Depois de muitos séculos de escravidão, pouco caminho fizemos para chegarmos a sermos  brasileiros com deveres e direitos iguais. O importante é não parar”.
Vocês acreditam? Naquela noite dormi mais tranqüilo, porque estava em paz comigo mesmo, contente por estar na turma de quem levanta a cabeça e a voz querendo mudar as coisas para melhor.