A bolsa e os macacos
Nestes dias corre na África uma história para explicar a crise financeira e a derrocada das bolsas às pessoas que nada entendem de economia. “Um dia, um desconhecido chega a um vilarejo do interior e anuncia a todos que quer comprar macacos. Paga 10 dólares por cada animal. Logo os moradores daquele povoado correm para a floresta e capturam centenas e até milhares de macacos, tanto que em breve a população dos primatas se reduz e os caçadores são obrigados a diminuir o ritmo da caçada. Mas, o desconhecido anuncia que paga 15 dólares por cada macaco. Com isso todos redobram os esforços para caçar os poucos animais que ainda restam. Logo, em toda a floresta não se encontra mais um só macaco. Então, o desconhecido, oferece 50 dólares por cada um, avisando, porém, que deve ausentar-se por um tempo, será seu capataz a comprar os últimos bichos. Este reúne os cidadãos e indicando as jaulas com os milhares de macacos capturados e comprados por seu patrão diz: ‘Se quiserem os vendo por 35 dólares cada, assim, quando o meu patrão voltar, vocês podem revendê-los por 50 dólares. Iludidas com a perspectiva do fácil enriquecimento as pessoas daquele vilarejo vendem tudo o que tem para resgatar os macacos. Recebido o pagamento, o capataz desaparece na noite. Ele e o desconhecido patrão não aparecem mais, mas no povoado sobram macacos correndo por tudo quanto é lado”. Bem vindos ao mundo da Bolsa.
Tão amargo é também o despertar de todos nós, moradores desta aldeia global que de cinto apertado e olhar incrédulo assistimos à derrocada do único fundamentalismo aceito por lei divina até pelo mais descrente dos cidadãos: o fundamentalismo mercantilista. Até a sociedade competitiva, fundamentada no consumismo e no egoísmo econômico exauriu o próprio reservatório. A mentira foi desmascarada: o livre mercado não é sinônimo de concorrência leal. Simplesmente consentiu – roubando uma expressão de Joyce – à livre raposa de caçar em livre galinheiro. E sobram plumas, como sobram macacos na historinha africana.
Somos todos mais pobres, mas sempre há alguém mais pobre do que os outros. Porque a pagar as conseqüências das tentativas de salvar o sistema financeiro e especulativo global são, sobretudo os países do sul do mundo e as classes sociais mais fracas do mundo ocidental.
Ao longo de décadas os EUA e as grandes agências econômicas internacionais (FMI e Banco Mundial) impuseram o modelo liberal deles às economias africanas e latino-americanas. De megafone na mão gritaram ao mundo que o livre mercado era o único sistema capaz de melhorar as condições de vida dos países mais pobres. Condicionaram até as ajudas aos países mais miseráveis e endividados aos ditos “ajustes estruturais”. Menos Estado e mais liberalizações, caso contrário nada de ajudas.
E agora o que aconteceu? A doutrina ultra-liberal ruiu também no rico Ocidente e Washington & Co. não tiveram algum escrúpulo em nacionalizar os próprios bancos e a economia deles, apresentando a conta a pagar aos mesmos cidadãos. E o rigor liberista imposto à África e à América Latina ao longo de todos estes anos com conseqüências desastrosas? Capitulo encerrado!
Mas não pode ser fechado o capitulo relativo às ajudas à pobreza, porque os bilhões de dólares ou euros gastos para contornar a crise financeira sempre foram negados à luta contra a miséria. O diário Le Monde publicou as estimativas das Ong, segundo as quais para alimentar os 923 milhões de seres humanos desnutridos, bastariam 30 bilhões de dólares ao ano. Menos do 5% dos 700 bilhões de dólares destinados pelo ministro das finanças americano, Henry Paulson, para salvar seus bancos.
Hoje estão em risco até os Objetivos do Milênio. O 0,70% do PIB que cada nação rica deve destinar, até 2015, às ajudas aos países em desenvolvimento parece uma utopia.
A esta hipótese se junta outra, também perigosa: a inadimplência pública na luta contra a pobreza. Governos e comunidade internacional fecham-se em si mesmos, delegando só a ao privado a solidariedade internacional. Isso é determinar a inexistência de uma responsabilidade pública dos países ricos com os mais empobrecidos
É evidente que injetar recursos públicos para lançar um salva-vidas ao sistema financeiro significa também não destinar estes mesmos recursos ao welfare e às políticas sociais de cada país, com o inevitável aparecimento de novas formas de pobreza e marginalização.
Os economistas afirmam que ampliar a intervenção do Estado é o único meio para evitar a catástrofe. Ma o sistema já entrou no túnel do absurdo: quem especulou e enriqueceu, é protegido; quem teve que engolir calado o sistema, volta a apanhar cacetadas.


