Um olhar de esperança
Os últimos dias aqui na missão de Carapira (região de Moçambique) têm sido uns dos mais duros. Em menos de 24 horas participamos de dois velórios. Dois dos nossos alunos faleceram subitamente vítimas de uma epidemia de cólera que se alastra na região e que já levou outros para o hospital.
Aqui sempre estamos prontos para viver e morrer. O que nos conforta é a certeza da vida eterna. Em toda essa situação tentamos ser um sinal de esperança no meio deste povo.
Os dois alunos falecidos passaram pelas nossas mãos, principalmente pelas mãos da Lourdes, minha companheira de missão que é enfermeira da escola e que presenciou os últimos suspiros de um deles. Só não somos contaminados pela cólera por graça de Deus. Ele sabe que temos de ficar de pé para ajudar os que ainda estão vivos.
Aqui se canta e se dança de barriga vazia e se morre por falta dos mínimos recursos e cuidados. É uma mistura de dor e alegria. Passando por essas experiências a gente lembra o que deve ter passado Comboni no seu tempo de missão e compreendre melhor o seu desejo de ter mil vidas para consumir todas na missão.
Estes últimos acontecimentos coincidiram com a visita de Valdeci, a pessoa que fundou e coordena o grupo dos leigos missionários combonianos no Brasil. Ele esteve conosco nesses momentos. Nós não temos dinheiro e nem segurança, mas vivenciamos o que poucos vivenciam.
Meus amigos, estou aqui há mais de dois anos. Vivenciei coisas bellíssimas como a sastifação de ver os olhos de um aluno brilhar diante do seu primeiro circúito elétrico funcionando ou o despertar de consciência de um jovem nos cursos de educação cívica e moral. Mas nada é mais belo do que sentar-se debaixo de uma árvore e sentir o coração deste povo falando e saboreando cada segundo da vida.
Temos muitas famílias em torno da nossa casa. Ao colocarmos nosso pé na sua porta as crianças nos pegam pela mão e nos conduzem até à árvore (que é a sala da maioria dos moçambicanos) e prepara logo o banco ou ás vezes as esteiras e dizem: “os missionários são nossos amigos”. Quando uma criança nos acolhe é sinal que todo o povo nos acolheu.
O povo abre as portas e o coração aos missionários. Quanta responsabilidade à pessoas em situações tão miseráveis e que, ás vezes, nem conseguem tratar de si mesmas! É nessas horas que se passa pelo coração e pela mente da gente as palavras do grande Mestre Jesus: “Não tenhais medo, eu sempre estarei convosco”. Isto basta para imediatamente levantarmos a cabeça e seguirmos em frente com esperança.


