Povos em busca de justiça e paz na Panamazônia

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Campanha Justiça nos trilhos

Agosto 2008 / Belém, Julho de 2008 – Respira-se um ar cheio de vida e rico de lutas. Bolívia, Suriname, Guiana Francesa, Peru, República Cooperativista de Guiana, Venezuela, Equador, Colômbia e Brasil reunidos para preparar o Fórum Panamazônico, que acontecerá nos primeiros dias de Fórum Social Mundial na capital do Pará, em Janeiro de 2009.
Nossa equipe de coordenação da «Campanha Justiça nos Trilhos» participa desse evento, encontrando muitas outras associações, movimentos sociais, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outras comunidades tradicionais.
O Fórum Panamazônico prepara-se a dialogar com o mundo. A percepção comum é que o FSM realmente vai acontecer no lugar certo e na hora certa. Pelas colocações dos representantes dos países presentes, atravessamos um contexto de emergência. O atual modelo econômico-cultural gerou em poucas décadas, depois de milhares de anos de convivência sustentável com o meio ambiente, uma cadeia de repercussões devastadoras.
O comentário que perpassa as intervenções dos vários delegados da Panamazônia é que hoje outro mundo, bem pior, é possível. Isto é, as condições sócio-ambientais em que nos encontramos podem ser comparadas a um trem carregado de humanidade correndo rumo ao abismo.
É clara a impressão que o FSM esteja aos poucos mudando de perspectivas. Não só uma simples oposição aos grandes do mundo reunidos em Davos, o desafio agora é o inteiro modelo de desenvolvimento que aceitamos e construímos nas políticas internacionais, nas decisões regionais e nas atitudes sociais e pessoais de cada dia.
Com essa preocupação, o Fórum Panamazônico chama as nações e todos os movimentos do mundo a uma aliança sócio-ambiental especialmente em defesa da Amazônia, símbolo e contexto essencial para busca de alternativas no desenvolvimento.
O lema do Fórum Panamazônico 2009 será “500 anos de resistência afro-indígena e popular”, frisando que a devastação ambiental teve origem na colonização e continua ainda hoje pela concepção capitalista de desenvolvimento, cuja relação com a natureza é instrumental. O lema também evidencia que o objetivo de todo movimento ambientalista deve ser a integração das populações com o meio ambiente, para o bem e a vida de todos.
O FSM terá como eixos de trabalho as resistências, as alianças e as celebrações. Celebrar as vitórias já conseguidas, resgatar as lutas realizadas e denunciar as diversas formas de opressão e devastação pode gerar novas alianças entre movimentos de diferentes lugares. Essa rede de ação é a riqueza do Fórum Social Mundial.
No caso do FSM de Belém, cujo enfoque será especificamente ambiental, tratar-se-á de individuar lugares de conflito paradigmáticos e ressaltar as possíveis alternativas.
Aos poucos, percebe-se a necessidade de algum desfecho concreto para o Fórum. Em 2003 alguns movimentos lançaram logo após o FSM de Porto Alegre a iniciativa de um grande protesto mundial contra a guerra no Iraque, realizando assim a maior mobilização pacifista do mundo. O mesmo poderia acontecer, em âmbito ambiental, em 2009, uma campanha mundial contra a devastação da Amazônia e contra as multinacionais que a saqueiam. Neste sentido, a campanha Justiça nos Trilhos representa uma iniciativa local que pode ter significativas repercussões internacionais.
Além da defesa do meio ambiente, o encontro panamazônico permite a partilha sobre a situação sócio-política dos vários países dessa ampla região latino-americana.
O que se destaca é a força centrífuga atualmente em ação nos movimentos sociais. Depois de anos de lutas de conjunto, o sucesso de diversos governos aparentemente ‘progressistas’ voltou os movimentos para as lutas nacionais, na expectativa de ter mais atenção por parte do poder executivo. As vitórias conseguidas por parte dos indígenas e dos movimentos populares representam para a América Latina um grande avanço. Apesar das numerosas contradições de muitos governos, não podemos comparar as atuais administrações com àquelas das décadas passadas. Trata-se de passos adiante que é preciso resgatar.
A concentração das cobranças em nível nacional concretizou-se em lutas e pressões populares significativas em vários países, enquanto no Brasil percebe-se uma progressiva letargia dos movimentos sociais, devida às políticas assistencialistas do Governo Lula.
De forma geral, porém, o processo de preparação da 8ª edição do Fórum está acordando os movimentos de muitos países. Em diversos lugares realizam-se encontros de formação e articulação, toda a região panamazônica é mobilizada e está conseguindo desde já levantar sua voz e pedir suporte para suas lutas.
Apesar de tudo a esperança é que “outro mundo é possível!”.