Um "bicho" chamado "mercado"*

Os jovens e o mercadoTenho muito medo desse bicho. Ele vive matando. Prefere o sangue de crianças, trabalhadores, indígenas e pobres em geral. Seu lema é antigo e atual: “Decifra-me ou devoro-te”. Sua base é o mercado. Seu negócio é vender. Para isso, trabalha com o desejo dos consumidores.

“E quem pensa a partir do desejo nunca tem o suficiente”, explica o professor Jung Mo Sung. Entre os efeitos mais notórios do bicho papão acham-se os seguintes:

Exclusão social: cresce a categoria dos considerados não-gente. Hoje, quem não tem poder econômico, não é. Os excluídos não contam porque, ao sistema, nada acrescentam. Por este motivo, são tratados como coisas que falam, expressão utilizada pelos romanos em referência aos escravos. Existiam as coisas que falavam e as coisas que não falavam. Escravos eram coisas que falavam, mas não eram escutados.

Culpabilização da vítima: o sistema leva você a acreditar que todo o fracasso é culpa sua. Quem não consegue competir, passa a pensar que ele é o incompetente e que sua incompetência tem um preço. Quem se sente culpado, habilita-se a aceitar que deve pagar uma pena. E, quem é penalizado constantemente, vai perdendo a autoestima e a dignidade. Quem perde a dignidade, passa a pensar que não tem direitos. E quem acha que não tem direitos, perde também a vontade de lutar.

Crescimento da violência: o fenômeno é complexo. A violência não se reduz a um impulso oriundo de quem tem fome e está sem comida. Entretanto, sem comida distribuída entre todos os que têm direito a sentir fome, não pode existir paz. Vale lembrar que, no mundo, de cada cinco pessoas, duas vivem com menos de R$ 6,00 por dia. As causas da violência são múltiplas, mas não podem ser ignoradas as de carácter socioeconômico.

Consumo ilimitado. O neoliberalismo cria símbolos e ídolos. O ídolo passa a estimular desejos miméticos (vontade de imitar). Instiga a querer o mesmo que o outro deseja. Assim se fortalece a concorrência e a corrida ao consumo. Imprimir esta lógica nos indivíduos é tudo o que o sistema de mercado deseja. Se você entrar nesse esquema, o bicho já lhe pegou. Livrar-se dele não é tarefa fácil. Se, por um lado, há desejos que são necessidades e precisam ser satisfeitos, por outro, existem desejos que devem ser vigiados e controlados, pois são verdadeiros instintos do sistema.

Estresse globalizante. Hoje vivemos os efeitos de uma globalização sedentária. O capitalismo nos quer assim: não críticos e ativos, mas ativistas (ou desocupados) ingênuos. Enquanto fazemos coisas, não paramos para pensar, não questionamos. Não questionar é tudo o que ele espera. O ativismo tem seus agregados: a irritação, a angústia existencial, a tensão, a intolerância, etc., levando à depressão, à doença e mesmo à morte. De tudo é salutar livrar-se.

Para impedir que o bicho nos pegue e nos devore de vez, é preciso prendê-lo pelos chifres. E não adianta ir sozinho, pois ele tem força. É fundamental resistir, articulando as múltiplas forças que desejam alcançar outros horizontes: da sociedade justa, solidária e sustentável. Não podemos imitar o bicho que exclui, devora e depreda. Se estivermos bem organizados, quem vai ter que correr é o bicho. Podes crer!

* Extraído do título original: “Se correr o mercado pega, se ficar...”
Autor: Dirceu Benincá
Fonte: Mundo Jovem, fev. 2010, p. 11.