E quando celebraremos o “Ano Profético”?

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Ano Sacerdotal

A Igreja Católica está a meio caminho da celebração do assim chamado “Ano Sacerdotal”. Pelas suas caraterísticas profundamente clero - cêntricas, e em respeito à dignidade sacerdotal de todos os batizados, não teria sido melhor chama-lo de “Ano Clerical”? Será que algum dia nós teremos a coragem de propor e viver a celebração de um tempo de graça, denominando-o de “Ano profético”?
Aliás, a liturgia destes dias chama a atenção sobre essa dimensão fundamental da nossa fé: somos convidados a seguir os passos de um Jesus profeta. Mas, nas circunstâncias atuais, poderíamos fazer-nos seriamente uma pergunta incômoda, como a que intitula o texto a seguir:

Não precisamos de profetas?

“Um grande profeta surgiu entre nós”. Assim gritava o povo nas aldeias da Galileia, surpreso com as palavras e os gestos de Jesus. Porém, não é isto que aconteceu em Nazaré quando ele se apresentou entre os seus vizinhos como ungido para ser profeta dos pobres.
Jesus observa primeiro a admiração do povo e depois a sua rejeição. Não se surpreende. Lembra a eles um refrão: “Eu lhes garanto que nenhum profeta é bem recebido em sua terra”. Depois, quando o expulsam fora do povo e tentam acabar com ele, Jesus os abandona. O narrador diz que “ele passou no meio deles e se afastou”. Nazaré ficou sem o profeta Jesus.
Jesus era e agia como profeta. Não era sacerdote do tempolo nem mestre da lei. A sua vida desenvolveu-se no marco da tradição profética de Israel. A diferença dos reis e dos sacerdotes, o profeta não é indicado nem ungido por ninguém. A sua autoridade provém de Deus, empenhado em alentar e guiar com o seu Espírito o seu povo querido entanto que os dirigentes políticos e religiosos não sabem fazer isso. Não é por acaso que os cristãos confessam a Deus encarnado num profeta.
Os traços do profeta são inconfundíveis. Em meio a uma sociedade injusta onde os poderosos procuram o seu bem-estar silenciando o sofrimento dos que choram, o profeta se atreve a ler e a viver a realidade desde a compaixão de Deus pelos últimos. A sua vida inteira se converte em “presença alternativa” que critica as injustiças e chama à conversão e à mudança.
Por outro lado, quando a mesma religião se acomoda a uma ordem de coisas injusta ou desigual e os seus interesses já não respondem mais aos de Deus, o profeta sacude a indiferença e o auto – engano, critica a ilusão de eternidade e absoluto que ameaça toda religião e relembra que somente Deus salva. A sua presença introduz uma esperança nova, pois ele convida a pensar o futuro a partir da liberdade e do amor de Deus.
Uma Igreja que ignora a dimensão profética de Jesus e dos seus seguidores, corre o risco de ficar sem profetas. Preocupa-nos a escassez de sacerdotes e pedimos vocações para o serviço presbiteral. Por que não pedimos que Deus suscite profetas? Não precisamos deles? Não sentimos necessidade de suscitar o espírito profético em nossas comunidades?
Uma igreja sem profetas, não corre o risco de caminhar surda aos chamados de Deus à conversão e à mudança? Um cristianismo sem espírito profético, não enfrenta o perigo de ficar controlado pela ordem, pela tradição ou pelo medo perante a novidade de Deus?

José Antonio Pagola, teólogo espanhol
Fonte: Fé Adulta, fevereiro de 2010.

Tradução e adaptação: Redação Ecooos