31 de janeiro de 2010 - IV Domingo do Tempo Comum

Autor do texto: 
Gustavo Covarrubias Rodríguez

Lc 4,21-30: "Livres, para libertar"

O Evangelho deste domingo está estreitamente ligado com aquele que a liturgia nos propôs para a nossa reflexão no domingo passado: Jesus chega à sinagoga de Nazaré e lê um texto do profeto Isaías; mas quando chega ao trecho em que se diz “o ano da graça do Senhor”, corta a leitura sem ler o restante “e o dia da vingança do nosso Deus”. Este corte é a chave para entender tudo o que acontece depois.
Os ouvintes conheciam o texto e discordam com a mutilação que faz Jesus. Aliás, há uma tradução alternativa para aquele “todos lhe davam aprovação (martyreo) e se admiravam (thaumazo,)”: “todos se declaravam em contra, estranhando o discurso (sobre a graça) que saia de seus lábios”. Somente assim cobra pleno sentido a resposta de Jesus que, de outra maneira, dá a impressão que é ele quem inicia a briga quando, na verdade, somente se defende da agressão.
A importância de suprimir a última frase do texto de Isaías fica mais clara com a explicação que hoje dá Jesus.  Ele menciona outros dois profetas que justificam essa aparente mutilação: Elias e Eliseu são exemplos de como Deus age em relação aos não judeus.
“Não é este o filho de José?”. A única razão que dão as pessoas do seu povo para rejeitar as pretensões de Jesus é que ele não mais do que qualquer um do povo, conhecido por todos. Mas a grandeza de Jesus está justamente em que, sendo “um de tantos”, foi capaz de descobrir o que Deus esperava dele. Ele é um ser humano que tira do fundo do seu ser aquilo que Deus colocou em todos. Ele fala do que encontrou dentro de si e nos convida a descobrirmos, em nós mesmos, o que ele descobriu.
Assim, a primeira oposição que Jesus sofre neste evangelho não vem dos sumos sacerdotes, nem dos escrivas ou dos fariseus, mas do povo simples. Os seus conterrâneos percebem que ele não vai corresponder a suas expectativas e se irritam. Qualquer visão que vá além daquela do próprio gueto (família, povo, nação, etc.) será interpretada como traição à instituição. O povo de Nazaré não aceita um messianismo para todos. Por isso, Jesus apela ao AT para provar que os profetas já tinham manifestado essa atitude em favor dos estrangeiros necessitados. Por isso, a sua mensagem não é contrária nem alheia à Escritura. Mais bem, as pretensões dos seus compatriotas são uma má interpretação da mesma!
Jesus vem anunciar a libertação de todas as opressões. A sua salvação não vai contra de ninguém, mas a favor de todos. Ora, não podemos ser ingênuos: o que é boa notícia para os oprimidos é má notícia para os que teimam em continuar oprimindo. Com o Evangelho na mão, não há como ficar em cima do muro: ou estamos dispostos a lutar pela liberdade de todos, ou somos também opressores. No Evangelho Jesus nos dá um exemplo de liberdade sem limites. Por isso, o lema do verdadeiro cristão, sem termos meios, é este: “nem oprimir nem deixar-se oprimir”!
A proposta de um Deus Pai - Mãe para todos é para Jesus irrenunciável e inegociável. Qualquer outro Deus é um ídolo que há que rejeitar, porque em vez de libertar, escraviza; embora possa continuar sendo muito útil para aqueles que pretendem deixar as coisas do jeito que estão!

Tradução e adaptação tomada de: Fé Adulta