PROCURA

VOCAÇÃO MISSIONÁRIA

OPINIÕES

PALAVRA E MISSÃO

TESTEMUNHAS

Jesus de Nazaré constituiu um grupo de discípulos não para exigir deles obediência ou fidelidade ao estilo exigido pelo César, pelos mestres da lei ou pelos grupos sacerdotais, mas para que se juntassem a ele e o seguissem (Cf. Mc 3,13-15). A lógica do seguimento implica relações livres e novas em todos os sentidos. Por isso, a fonte da espiritualidade dos verdadeiros discípulos não é a doutrina, a ordem (hierarquia e governo), mas a disposição radical para colocar-se sempre a caminho. Caminhar na estrada de Jesus é ter a coragem de tomar a cruz do conflito e da perseguição por causa do Reino (Mc 8,24-38). É abrir caminhos para aqueles a quem todos os caminhos lhes são fechados. É também cuidar para que os pequeninos não tropecem no escândalo da vontade da posse, da dominação e da cobiça (Mt 18,6.7).
Outra dimensão da espiritualidade do seguimento é a fidelidade entendida como serviço à mesa, que tem como paradigma o lava-pés (Cf. Jo 13,4-11). Ele implica uma atitude permanente de abertura ao outro, particularmente na construção de relações fraternas em torno à mesa e no serviço aos mais pobres. Desde essa perspectiva, para o discípulo que é guiado pelo Espírito de Jesus de Nazaré é exigido, a partir da mesa, construir relações anti-mercantilistas, anti-imperialistas e anti-hierárquicas. É o chamado permanente ao serviço que se traduz no reconhecimento do valor, da dignidade e do protagonismo dos mais pobres.
O serviço exige uma atitude de contínua vigilância, para não trair a memória de Jesus na traição aos pobres. Ela se dá quando não acreditamos nos destinatários prioritários do Evangelho do Reino. Ou seja, quando não devolvemos aos pobres a boa notícia de que eles são os ungidos, os escolhidos por Deus (Cf. Lc 7,38). Quando dizemos a eles que “Deus os ama”, mas não acreditamos, de fato, que “Deus os chama”. Quando, na prática, somente acreditamos no Deus dos pobres, mas não nos pobres de Deus!
Paradoxalmente, em torno à mesa, muitas vezes podemos trair a nossa vocação ao serviço quando celebramos uma ceia que exclui os pobres e os famintos do acesso ao Pão de vida. Quando fazemos da memória um sacrifício ritual, da mesa um altar, e do ministério (literalmente, “quem tem menos”) o magistério (“quem tem mais”) (Lc 22,23-27).
A espiritualidade do discípulo-missionário, sempre a caminho, é vivenciada também na missão. Ela implica, antes de tudo, um contínuo viver itinerante, no desprendimento e numa permanente atitude de acolhida (Cf. Lc 10,1-9). Mais do que ter a preocupação com o aumento do número dos discípulos, a missão deve nos levar a sermos presença, pois são os missionários que precisam de encontro, de abrigo, de acolhida do outro (Mt 10,9-14). Afinal, o principal anúncio consiste no fato de que os outros nos reconheçam como pessoas que não encarnam atitudes de mestres que ensinam e dão, mas de pessoas com postura de andarilhos, de mendigos e de aprendizes que desafiam os outros a nos acolher e a nos abrirem suas casas!
O sentido da caminhada (da missão) está, dessa maneira, naquilo que a 'casa' vai fazer conosco. É a casa que nos acolhe, que nos enriquece e nos muda. Discipulado não é trazer as pessoas para dentro da nossa casa (muitas vezes reduzida ao templo), mas termos coragem de entrar na casa dos outros, para dizer-lhes que eles têm “shalom”, ou seja, muito valor, qualidades, potencialidades para viver em plenitude. Missão é também pedir a conversão à fé no outro. É abrir todas as casas (grupos humanos, comunidades, culturas) para novas maneiras de se relacionar, no respeito, na valorização mútua, na partilha e na fraternidade. É devolver a todos, de graça, a exousia (autoridade) recebida gratuitamente.

Discipulado missionário: caminho, mesa e casa

Sandro Gallazzi
Outubro 2008