
“Como discípulos e missionários a serviço da vida, acompanhamos os povos indígenas e originários no fortalecimento de suas identidades e organizações próprias, na defesa do território ... e na defesa de seus direitos. Comprometemo-nos também a criar consciência na sociedade a respeito da realidade indígena e seus valores, através dos meios de comunicação social e outros espaços de opinião. A partir dos princípios do Evangelho, apoiamos a denúncia de atitudes contrárias à vida plena em nossos povos de origem...” (DA, 530)
Caríssimos irmãos e irmãs,
O povo Guajajara está em luto e o Evangelho de Jesus nos chama a compartilhar esta dor e indignação.
Maria dos Anjos, sete anos de idade, uma pequena flor da aldeia Anajá, do povo indígena Guajajara, no município de Arame, foi assassinada.
Com certeza, estão recebendo somente agora esta notícia, porque a morte dos pobres não dá manchete e a grande mídia continua sendo cúmplice do processo de ocultação dos povos indígenas, iniciado com a conquista destas terras, há mais de quinhentos anos.
À nossa dor se acrescenta a preocupação com o preconceito, que ainda albergam no nosso meio: com efeito, são muitos, entre nós, que se deixam conduzir por sentimentos e atitudes racistas, que impedem de perceber o horror desta morte e de sentir, no fundo do coração, esta dor.
No dia 05 de maio, pela tarde, vários tiros foram disparados por quatro pessoas bêbadas na direção das casas da aldeia Anajá. Uma das balas arrancou definitivamente a beleza, a simpatia e o futuro de Maria dos Anjos.
Os sentimentos de dor, de revolta e indignação que tomaram de conta da família e dos moradores da aldeia não foram partilhados pela maioria dos vizinhos não indígenas. Para eles a morte de Maria dos Anjos é um fato comum, corriqueiro, normal. Ela é mais uma vítima de uma violência que ninguém estranha mais, principalmente se ela ceifa a vida de um índio da região.
“Escolher, pois a vida”, como nos convida a campanha da fraternidade deste ano não é para nós cristãos algo natural e comum. Escolher a vida exige, em primeiro lugar, que aceitemos nos educar a assumir atitudes de verdadeiro amor à vida, nossa e alheia. Exige que tenhamos a coragem de vencer a indiferença que nos paralisa. Que tenhamos a vontade firme de resgatar dentro de nós o mesmo sentimento de indignação que movia Jesus ao ver irmãos ou irmãs que “pareciam como ovelhas sem pastor” e, por isso mesmo, desamparadas, ameaçadas e trucidadas.
Os seguidores de Jesus de Nazaré são aqueles que além de se comoverem pela morte trágica de tantas Marias dos Anjos Guajajara se sentem questionados e interpelados em sua capacidade de defender e proteger vidas. Não somente as vidas dos que nos são próximos, os parentes e familiares, mas a vida de todos “os samaritanos”, dos estrangeiros, dos que têm história e cultura diferentes, dos indígenas.
Os que optam em favor da vida, enfim, sabem se colocar de forma clara e intransigente contra um sistema que não quer desarmar os profissionais das matanças de ontem de hoje, pois ele faz da violência e das armas sua fonte de poder e de lucro; e do preconceito e da intolerância o seu jeito de ser.
Maria dos Anjos Guajajara, como o seu nome indica, pertence, agora, ao reino dos anjos, àqueles seres que segundo a nossa crença, nos protegem e nos guardam em cada circunstância. Ela será mais um anjinho a cumprir essa missão. Ela, entretanto, pedirá que tenhamos a coragem de sermos desde já proteção e amparo de tantas outras Marias dos Anjos Guajajara cujas vidas continuam sendo desprezadas e ameaçadas.
Nos despedimos convidando as comunidades para se unirem em oração e confirmar a sua fidelidade ao Deus dos pobres e aos pobres da terra.
São Luís do Maranhão, 18 de maio de 2008, Domingo da Santíssima Trindade
Bispos do Maranhão
18 de maio 2008