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VOCAÇÃO MISSIONÁRIA

OPINIÕES

PALAVRA E MISSÃO

TESTEMUNHAS

Mateus 4, 1-11

A narrativa da tentação é apresentada nos evangelhos sinóticos como preparação para o início do ministério de Jesus. Cada um dos evangelistas apresenta o episódio de acordo com a realidade de sua comunidade. Mateus escreve para uma comunidade de origem judaica, que bem lembrava os quarenta anos em que o povo passou no deserto cheio de provações e desafios.

O deserto é lugar de confronto, de provação e de purificação. O projeto do Reino de Deus trazido por Jesus é aqui confrontado de forma dramática com a proposta do antireino (diabo). Não esqueçamos que diabo significa adversário.

Jesus não está só. Ele é conduzido pelo Espírito ao deserto e se apóia na Palavra de Deus. Assim como o povo de Israel foi tentado no deserto por quarenta anos, Jesus enfrenta as provações por quarenta dias. Ao contrário dos israelitas, que tantas vezes murmuravam contra Deus e sucumbiram ao ser tentados, Jesus vence as tentações.

As três tentações configuram o que acontece na missão de Jesus. Na sua vida pública, Jesus teve que enfrentar as autoridades políticas e religiosas de seu tempo que faziam de tudo para se manterem numa posição privilegiada à custa da exploração e exclusão de grande parte do povo, sobretudo dos mais pobres. Para se manter fiel ao projeto do Reino, Jesus se coloca do lado dessas vítimas.

Nesta sua opção ele foi provado ao entrar numa relação de conflito com as autoridades que mantinham o sistema social, econômico e religioso que gerava uma multidão de excluídos. Foi provado ainda pelos seus discípulos que esperavam que Jesus assumisse a posição de um messias glorioso que pudesse realizar grandes prodígios. As três tentações vão, portanto, de acordo com esse perfil de messias.

No entanto, Jesus rebate as propostas do tentador (diabo) citando a Escritura. Não é preciso transformar pedra em pão, nem fazer grandes ações milagrosas. A Palavra é o pão dos filhos e filhas de Deus, sustento na caminhada. Jesus nos mostra sua plena fidelidade ao projeto do Pai superando a tentação do triunfalismo, do ter e do poder dominador.

O simbolismo dos quarenta dias aponta para toda a nossa vida de discípulos e discípulas durante a qual enfrentamos provações e tentações. Em nossa missão somos tentados a seguir um messias glorioso e triunfalista que se distancia do compromisso com as vítimas geradas pelo sistema social e econômico do nosso tempo. Somos tentados a viver uma fé intimista presa ao nosso ego. Somos tentados a assumir uma missão fácil, a buscar prestígio e a exercitar o poder como dominação.

Nesse começo de quaresma, uma escuta atenta e uma prática criativa da Palavra de Deus se tornam critério fundamental que nos orienta em meio às ambigüidades e nos levam à superação das tentações fazendo-nos fieis ao projeto de Deus.

10 de fevereiro 2008 - I Domingo da Quaresma

Raimundo Rocha
Missionário Comboniano