
Vamos tentar entender esse evangelho através de uma viagem no interior do Maranhão. Quem são esses “pequeninos”, “cansados e fatigados”, “sob o peso de muitos fardos”?
Venham comigo em busca deles, os preferidos por Deus, os que Jesus busca a cada passo de sua caminhada.
Assim como Jesus louvou o Pai pela sabedoria desses pequeninos, vamos parar um pouco nós também, para aprender deles.
Jonas é um pequeno camponês; vive numa região de fortes conflitos agrários e o peso que ele carrega é a luta de cada dia para defender o seu direito à terra. Os jagunços grilaram 3400 lotes (!), expulsando as famílias legitimamente cadastradas. Parece uma história de outros tempos, mas está acontecendo hoje... Por enquanto é melhor não especificar onde.
Muitos pequenos produtores preferiram fugir. Quem levantou a voz foi logo ameaçado de morte. Os familiares de Jonas muitas vezes insistiram: “Por que tu também não deixas a terra? Por que não ficas calado e procuras salvar tua vida?” Mas Jonas, homem simples e hoje também confuso e assustado, sempre respondeu: “É preciso que alguém fale!”
Edvar vive de baixo dos altofornos de uma siderúrgica. Ela descarrega pó de ferro e fumaça em cima da casa e da comunidade dele; água quente e suja de resíduos rega sua horta e beira os barracos dos vizinhos. Edvar não conhece as leis, mas entende que tudo isso não está certo. O peso que ele carrega é o abuso e a violência ambiental de grandes firmas que brincam com os pobres e burlam a própria lei.
Em sua simplicidade, Edvar foi batendo às portas mais diversas, até enviou uma carta ao presidente Lula (!). Teimando, como a viúva na frente do juiz desonesto do evangelho, conseguiu abrir alguns caminhos e hoje coordena um grupo de 21 famílias que tem a ousadia de processar o gigante das siderúrgicas.
São esses os pequeninos que Jesus gosta de visitar todos os dias, desejando que eles encontrem descanso. Até os discípulos do próprio Cristo deviam ser assim: talvez pouco preparados, meio bagunçados, mas teimosos, apaixonados pela vida e persistentes. Para eles Jesus deixa um conselho: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”.
Quer dizer: “abaixem a cabeça, carreguem o peso submissos e calem a boca”? Será que é isso? Que o cristão deve evitar os conflitos, deve ser um bonzinho que aceita qualquer situação, na esperança que no céu seja melhor?
Responde-nos a primeira leitura: “Exulta! Vem o teu rei. É humilde e vem montado num jumento”. Mansinho, parece que não vai fazer mal a ninguém. Mas “eliminará os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém. Quebrará o arco do guerreiro, anunciará a paz”.
Assim como Edvar e Jonas, o Messias e o discípulo vêm desarmados, pobres, aparentemente fracos. Mas teimosos e decididos, promovem a paz através da justiça (o jumento era a montaria dos juízes!).
“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos”. Vinde a mim, vós mártires da terra, vós comunidades sofridas pela violência de quem lucra à custa de vossas vidas...
Somente juntos, aprendendo de Jesus, encontraremos descanso na justiça: terra para as nossas famílias, moradia digna, trabalho sem violência ambiental, paz!
Dário Bossi
Missionário Comboniano