
O Fórum Social Mundial é um encontro anual dos movimentos que lutam por uma "globalização alternativa" a fim de coordenar as campanhas mundiais, compartilhar e aperfeiçoar as estratégias organizacionais e informar-se mutuamente sobre os diferentes movimentos espalhados pelo mundo e seus anseios.
O FSM costuma realizar-se no mês de janeiro, ao mesmo tempo da realização do seu grande rival capitalista, o Fórum Mundial Econômico, que se reune na cidade de Davos, na Suíça. O FSM tem um lema próprio: “Um outro mundo é possível”.
O primeiro FSM aconteceu de 25 a 30 de janeiro de 2001 em Porto Alegre e foi organizado por grupos e movimentos alternativos à globalização e patrocinado em parte pela Prefeitura de Porto Alegre, administrada pelo PT. Cerca de 12.000 pessoas, chegando do mundo inteiro, participaram desta primeira edição do Fórum.
Entre os organizadores, está Chico Whitaker, um ativista católico brasileiro, desde sempre comprometido com a democracia e contra a corrupção. Tirando os panos do político e assumindo aqueles de secretário da Commissão Justiça e Paz da Conferência dos Bispos Brasileiros (CNBB), Chico recolheu um milhão de assinaturas a favor de uma Lei de Iniciativa Popular contra a currupção eleitoral. A Lei foi aprovada em 1999. “Desde então – lembra Chico – mais de 400 prefeitos, deputados e vereadores foram obrigados a deixar o cargo”. Foi também a partir daí que no Brasil começou um tempo de tranformação que levaria à vitoria eleitoral do candidado do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.
Em Nairobi, na ocasião do FSM 2007, perguntei a Chico se ele se considerava “o pai do Fórum”. Respondeu-me: “Que nada! No máximo, posso ser um dos tios. O Fórum tem um só pai: a sociedade civil internacional”.
O segundo FSM realizou-se novamente em Porto Alegre, de 31 de Janeiro a 05 de Fevereiro de 2002, com a participação de mais de 12.000 delegados oficiais, representantes de 123 países. Mais de 60.000 participantes deram vida a 652 laboratórios e 27 seminários. Entre os assessores mais famosos tinha o escritor e “dissidente auto-proclamado” Noam Chomsky. Também o terçeiro FSM aconteceu em Porto Alegre, de 23 a 28 de Janeiro 2003.
No ano seguinte, o quarto FSM foi organizado em Mumbai (Índia), de 16 a 21 de Janeiro 2004. Esperavam-se 75.000 pessoas, mas os participantes foram muito mais. Este Fórum ressaltou-se pela sua diversidade cultural. Também cresceu a atenção a respeito do software livre.
Na quinta edição, o FSM voltou a Porto Alegre, de 26 a 31 de Janeiro de 2005. Um grupo de manifestantes lançou o Manifesto de Porto Alegre.
A sexta edição optou para um “fórum policêntrico”, realizado em diversas cidades do mundo: em janeiro de 2006 em Caracas (Venezuela) e Bamako (Mali); em março de 2006 em Karachi (Paquistão).
Finalmente, em janeiro de 2007, o Fórum se muda para a África, em Nairobi (Kenya). Chico considera esse momento de fundamental importância, mesmo se, em termos de organização, deixou muito a desejar.
“O simples fato de poder realizar o Fórum nesse continente já é uma vitória para todos nós. Os participantes conheceram-se mais, ultrapassaram fronteiras culturais e tocaram com mão a possibilidade de estabelecer novas alianças para trabalhar juntos. Os movimentos africanos começaram um novo processo, que com certeza vai se desenvolvendo”.
E as dificuldades na organização? “Além de todas as dificuldades em nível de organização – continua o ‘tio’ do FSM - repito sempre o que os amigos africanos disseram-me muitas vezes: "Hakuna matata" (não há problemas). A chuva de idéias, experiências e encontros trará frutos abundantes. Por outro lado, muitos delegados que vinham de fora puderam constatar quanto os efeitos mais negativos da globalização afetam o continente africano”.
Em Nairobi escutamos novamente as críticas de sempre referidas ao Fórum: já é um instrumento enferrujado, está mudando de pele, está na fase de decomposição. Muitos têm até dúvidas sobre a real utilidade do evento. Nasceu pela necessidade de afirmar uma alternativa ao imperialismo e ao apartheid global promovidos pelo Fórum de Davos. Agora na opinião de muitos o FSM reduziu-se ao papel de carro-de-som para o pensamento reformista. Uma exposição comercial do pensamento, onde as pessoas com mais recursos conseguem realizar mais eventos no calendário da semana de stands e seminários.
“É inaceitável a exclusão de dezenas de milhares de nossos irmãos e irmãs, favelados da capital kenyana, que inclusive nos acolheram, mas não puderam permitir-se de arcar os altos custos de participação”. O FSM corre o perigo de tornar-se garoto de propaganda para as organizações não-governamentais em busca de visibilidade e de uma nova virgindade política. A utopia está transformando-se em ilusão?
Chico: “Sabíamos que não teria sido fácil para os organizadores africanos estruturar o evento todo. Muitas coisas não aconteceram como era esperado. Mas todos esses aspectos não são essenciais para o Fórum. Essencial é uma só coisa: oferecer para todos os grupos da sociedade civil um espaço livre, onde poder se encontrar, se conhecer, discutir seus problemas, planejar juntos, aprender uns com os outros. Isso com certeza aconteceu em Nairobi. Talvez não tanto quanto em outras ocasiões. Tavez de forma mais desorganizada. Mas certamente com mais festa e sem menor eficácia”.
Franco Moretti - Missionário Comboniano, jornalista de Nigrizia
Fevereiro 2008