
Nos próximos meses escutaremos falar muito a respeito do Fórum Social Mundial.
Até nas pequenas comunidades do interior do Maranhão onde nós combonianos atuamos já se fala de Belém e se discute sobre quem poderia representar nossa Igreja e movimentos no FSM.
Mesmo assim, há ainda muita confusão sobre o sentido do Fórum, seus objetivos. Vale a pena ir até lá? Para quê? Vamos tentar entender a pergunta de um jovem e de uma liderança comunitária: o que é esse tal de fórum?
A redação de Ecooos foi pesquisar as respostas mais significativas e oferece aqui um ‘apanhado geral’ sobre o valor do Fórum Social Mundial segundo o olhar de alguns experts de hoje.
Em uma análise de conjuntura, alguns delegados da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresentam a situação de crise em que o planeta e as populações mundiais hoje se encontram: crise ecológica, econômico-financeira, crise no equilíbrio entre os povos, crise do modelo de democracia e de política.
Até as pessoas mais simples, hoje em dia, percebem através dos meios de comunicação a instabilidade e insegurança geral na qual a humanidade entra progressivamente.
As instâncias às quais até ontem o povo se referia perderam a credibilidade.
“Neste contexto de crise das instituições da vida social é a sociedade civil mesma que supre as falhas da democracia representativa e aponta alternativas de maior participação. Multiplicam-se os fóruns, movimentos, redes, campanhas, plataformas, círculos, etc., criando novas formas de expressão e mobilização. Muitas vezes, os movimentos sociais e populares estão na dianteira dos partidos políticos para expressar as necessidades e aspirações dos cidadãos e para encarar os desafios do futuro. Na medida em que contestam eficazmente o modelo hegemônico em crise e oferecem propostas novas e críveis, os movimentos sociais se tornam alvo de repressão e violência. Com frequência, são demonizados e acusados de serem eles próprios a causa dos males que denunciam”.
Emergem outras maneiras para o povo se organizar; o FSM é um espaço em que essa organização se reforça e se entrelaça com outros movimentos. É um convite às instituições para que acreditem e apostem numa colaboração séria e honesta com essas novas forças da sociedade.
Também nossas igrejas precisam de coragem e criatividade, para buscar o diálogo e a parceria com esses movimentos e organizações na busca de valores comuns: paz, justiça, solidariedade e cuidado ecológico.
“As organizações são fluidas, horizontais, dinâmicas, em rede. Demandas pontuais, às vezes locais, substituem os grandes projetos. E essas articulações bem vivas multiplicam-se rapidamente pelo acesso à internet”.
Para colaborar com eles, também nossos movimentos e comunidades precisam aprender a nova linguagem da rede de alianças e da defesa dos direitos coletivos.
Mas nem todos concordam sobre a eficácia do Fórum Social Mundial; os mais polêmicos se perguntam: como é que depois de todos esses anos de fórum tão pouco mudou na ordem social e econômica?
Ignácio Ramonet, entre os melhores analistas geo-políticos, reflete:
“O Fórum Social Mundial vive um momento de impasse político. Não está em condições de fixar objetivos que sigam uma mesma linha. Os movimentos sociais internacionais não conseguiram encontrar uma forma de articulação consistente capaz de enfrentar as atuais crises no mundo”.
Explicando melhor, Ramonet distingue diferentes fases:
“A primeira consistiu em definir a globalização. Em meados dos anos 90, ainda não existia o movimento porque não se sabia contra quem lutar. Foi preciso que muitos intelectuais e muitas forças políticas definissem conjuntamente o inimigo e, o inimigo era a globalização.
Na segunda fase se juntaram todos do Sul ao Norte na luta contra a globalização. O movimento é hoje, potencialmente, forte como nunca antes. É, em escala planetária, a única força em alguma medida organizada que resiste à globalização, mas ele não sabe o que fazer com essa força. Desperdiçaram-se oportunidades: hoje estaríamos em condições de levar a cabo lutas em escala mundial. Lembre-se apenas das grandes manifestações contra a guerra no Iraque. Chegou a hora para que movimentos, como o Fórum Social Mundial, deixem de ser movimentos de resistência e entrem em uma nova etapa com outras formas de luta”.
Ramonet está entre os que desejam do Fórum uma atitude mais protagonista e decidida: “Todo o movimento se formou com a base na idéia que não se pode tomar o poder. Eu me pergunto se isso continua sendo verdadeiro. A experiência na América Latina mostra que com o poder nas mãos se pode fazer algo: vejam os anseios de vários povos para um ‘Socialismo do século XXI’”.
Da mesma opinião que a de Ramonet parece ser Walden Bello, outro economista que acompanhou os movimentos do FSM desde o começo. Bello não quer incentivar de forma alguma a violência, insistindo que o princípio central do novo movimento é o controle sobre os métodos utilizados para chegarmos a um objetivo: se objetivos democráticos forem alcançados por meios autoritários, estaríamos traindo o movimento.
Ao mesmo tempo, não podemos limitar o FSM a um simples observador da situação: na opinião de Walden Bello, “o FSM como instituição não está enraizado em lutas políticas globais reais, e isso o converte num festival anual com impacto social limitado”.
“O FSM sofre a ilusão de poder se abster do tumulto, quase como sendo um ‘fórum neutral’, onde a discussão será cada vez mais distanciada da ação. O perigo é que o FSM se converta simplesmente numa troca de idéias, sem alguma agenda para a ação direta”.
Bello conclui com uma pergunta-provocação: “O FSM é o veículo mais adequado para a nova etapa de luta do movimento para a justiça global e a paz? Ou, tendo cumprido sua função histórica de somar e vincular os diferentes movimentos de oposição provocados pelo capitalismo global, será que o FSM não deveria tirar suas tendas e deixar espaço a outras modalidades de organização global da resistência e transformação?”
São perguntas duras, sobretudo aos ouvidos de jovens que talvez pela primeira vez nesse ano poderão participar do Fórum Social Mundial. Mas também no coração de quem, em todos esses anos, nunca deixou de acreditar no espaço do Fórum.
Chico Witacker, um dos idealizadores do evento, tenta responder a Walden Bello (quem quiser conhecer o debate inteiro pode procurar o site do FSM).
A idéia-chave que Witacker quer transimitir é que não existe contradição entre a luta direta dos movimentos sociais ao longo dos anos e o evento do Fórum, paralelo à resistência diária e concreta contra o neoliberalismo e para a transformação do mundo.
Ambas as ações são necessárias e não devem excluir-se uma contra a outra. O FSM é um espaço, não entendido diretamente e operativamente para mudar o mundo, mas para ajudar aqueles que lutam para mudar o mundo.
Espaço de encontro, fortalecimento, troca de idéias e iniciativas, para não se sentir só e para enriquecer-se a partir do ponto de vista e da ação do outro.
Nós padres diríamos: é necessário amar concretamente, atuar diretamente para transformar a realidade, mas também celebrar, para fortalecer as motivações, qualificar as estratégias, buscar sentido e união em nossas ações. Como o sangue, nos jogamos no corpo inteiro tentando reavivar a circulação, até os cantos mais distantes e frios, mas logo precisamos voltar ao coração, num movimento de encontro com todos aqueles que palpitam para a vida do único corpo, que é a humanidade.
Enfim, será que vale a pena mesmo participar do FSM?
Será que este artigo ajudou a esclarecer as idéias, ou as confundiu ainda mais? Será que nossas igrejas sentirão o dever e a beleza de estarem presentes em Belém?
Quem quiser nos ajudar a responder escreva ou venha nos encontrar lá: 27 de Janeiro de 2009.
Até já!