
Embora seja comboniano de coração, por não pertencer institucionalmente à Congregação, me sinto inseguro em apontar questões e desafios para o fórum comboniano em Belém. Tive a honra e a alegria de participar e assessorar o 1º Fórum (Nairóbi, janeiro de 2007). Testemunhei um fenômeno novo, ao menos em termos do que conheço de congregação religiosa: embora ali não fosse um capítulo geral ou alguma instância oficial da congregação, havia uma presença significativa de missionários de todo o mundo e, a partir da causa dos pobres e de um novo mundo possível, eles ensaiaram colocar (ao menos, naqueles dias) a congregação em estado de Fórum.
O Fórum Social Mundial começou por uma iniciativa voluntária de militantes que decidiram se reunir para se contrapor à ordem econômica vigente e juntos apoiar uma maior articulação de experiências que levem o mundo a uma transformação social e cultural. Fizeram isso sem mandato oficial, dado por alguma autoridade. Não representavam (nem até hoje representam) instituições. Agiram como cidadãos. O processo do Fórum foi crescendo até ser o que é atualmente: ponto de encontro da humanidade, no qual as pessoas estão ali simplesmente como pessoas e não por ocupar cargos ou possuir determinados títulos. O que as convoca é o projeto concreto e imediato de um novo mundo possível. A partir do fórum social e em integração com ele, começaram a se organizar fóruns de autoridades políticas, fóruns de juízes, de educadores e de agentes de comunicação. Até dois fóruns de teologia da libertação foram feitos e estamos preparando o terceiro. Mas o que constitui esses fóruns é ser espaços abertos e democráticos de discussão e articulação de experiências de base.
Quando digo que o 1º Fórum Comboniano ensaiou colocar a congregação em estado de fórum (preferi dizer que ensaiou colocar e não colocou), não quero fazer declarações bombásticas que podem soar interessantes, mas não têm conseqüências práticas. Refiro-me ao fato de que os missionários reunidos no 1º Fórum Comboniano começaram a pensar sua missão e sua unidade na Congregação a partir desta nova lógica de uma democracia radical, de uma abertura ao sonho e à utopia, ao mesmo tempo, obrigando-se a manter-se no âmbito estrito da realidade e tendo em vista as etapas possíveis. Agora, a preparação deste 2º Fórum Social Comboniano nos pede que aprofundemos isso: O que significa, a partir de baixo e de forma profética, colocar a missão e a congregação em estado ou em condição de Fórum?
Não pretendo aqui dar as respostas a questões que devem interessar e envolver a todos os participantes. O que me proponho aqui é, a partir da história e do processo dos fóruns sociais, levantar algumas questões e apontar desafios para o 2º Fórum Social Comboniano.
Em uma civilização humana que, daqui a alguns anos, chegará a nove bilhões de habitantes, não é mais possível conceber o mundo como mero espaço de produção e consumo, lugar de concorrência entre pessoas e mesmo entre povos. Os movimentos que buscam “outro mundo possível” querem, em primeiro lugar, repensar nossos ethos e fazem isso, não mais a partir da luta de classes, nem de partidos e sindicatos, mas da valorização das culturas e espiritualidades populares.
A palavra grega ethos tem sido como que reinventada para expressar a comunhão humana de paz e justiça dentro do mundo. Na sua origem, ela está ligada à vida na polis, cidade, lugar das tradições, valores e realizações humanas. Enrique Dussel explica: “O ethos é o ponto de partida para a compreensão do que funda o humanum, ou seja, é como o alicerce que sustenta o humano, como fonte dinâmica, não estática. O ethos está na origem das normas e da própria diversidade das culturas e religiões. Vemos o ethos como a marca primeira do Criador impressa nos seres humanos”(1).
Conforme esta compreensão, o ethos é o modo como os seres humanos se comportam na relação entre eles e na organização da vida na casa comum que é o planeta Terra. A explicitação e aprofundamento disso é o que chamamos de Ética. No mundo moderno, foi Heidegger quem melhor resgatou o sentido de ethos como casa, convivência humana, a partir de sua leitura do pré-socrático Heráclito (séc V a, C). Sua contribuição vai no sentido de “reinterpretar a Ética a partir de uma visão integradora do ser, como o lugar de onde deriva todo o mundo simbólico e a vida é entendida não como linha divisória e sim como instância aproximadora dos seres, circulo celebrativo de existência cósmica”(2).
Essa compreensão de Ética é, sobretudo, uma afirmação da capacidade humana para alem dos requisitos morais racionalizados. Ela parte de uma fé no ser humano e mostra que o segredo da vida é cuidado, amor, integração, afeto, ternura... Em 2000, a “Carta da Terra”, aprovada pela UNESCO, diz claramente: “A humanidade deve escolher o seu futuro”. É isso que os movimentos alter-mundialistas estão fazendo. Esta é a base ética e cultural dos fóruns sociais mundiais.
O que esta Ética, presente e atuante nos movimentos populares pode ensinar a nós que vivemos em uma instituição religiosa? Será que em nossas relações uns com os outros e no modo de lidar com as pessoas nos colocamos em esta dimensão ética? Como podemos aprofundar este caminho?
Não podemos falar deste assunto sem olhar de forma mais profunda o que está acontecendo na América Latina. É o continente no qual este processo de altermundialização de certa forma começou e é aqui que este processo dos fóruns mais está provocando mudanças estruturais no campo social e político. É bom compreendermos alguns elementos próprios deste movimento.
Na América Latina, os novos movimentos pela libertação surgiram a partir da insurreição dos índios do sul do México, em Chiapas, (1º de janeiro de 1994) contra o tratado de livre comércio das Américas. A partir daquele momento, os índios conquistaram o mundo todo com uma proposta alternativa ao neo-liberalismo. Fizeram isso sem violência e sem ser pelos modelos tradicionais de uma revolução marxista. Usaram a internet. Privilegiaram a comunicação. Espalharam poesias do sub-comandante Marcos. Promoveram dois encontros internacionais na selva Laconda, encontros da humanidade pela Vida e contra o neo-liberalismo. Nesses encontros, contaram com a presença de figuras como Danielle Mitterand, Mario Soares e prêmios Nobel da Paz como Rigoberta Menchu e Adolfo Perez Esquivel. Estes encontros foram precursores do processo do Fórum Social Mundial que começou em 2001 e dos movimentos que geraram uma nova realidade política na Bolívia, no Equador, na Venezuela e em outros países do continente.
Nos fóruns sociais, pela primeira vez, pessoas dos mais diferentes povos, raças e culturas se encontram simplesmente como pessoas humanas e a partir dos empobrecidos e da causa da justiça. Pela primeira vez no mundo, os dalits indianos tomam a palavra e falam ao mundo todo, com autoridade e liberdade. Em Nairóbi, os habitantes das barracópolis e os adolescentes de Kibera, embora isso não tivesse sido planejado, foram protagonistas fundamentais do 7º Fórum Social Mundial.
Estes movimentos querem refundar a Política a partir de novas bases, mas para isso se inserem nos movimentos de base e têm em comum não mais uma ideologia política ou uma mesma visão estratégica e sim acima de tudo uma opção ética. Esta Ética, embora não seja explícita, nem se intitule como Ética de Paz, vai se alicerçando e se organizando como o caminho mais profundo e eficaz que existe hoje no mundo para a conquista permanente da paz.
O que tem ocorrido de mais novo na América Latina tem sido a ressurgência e fortalecimento dos movimentos indígenas e negros. O processo social e político que ocasionou novos governos mais populares e a elaboração de uma nova constituição mais democrática na Bolívia, no Equador, na Venezuela (mesmo no Brasil e de outra forma em Nicarágua) não teriam ocorrido sem a retomada dos movimentos indígenas e, dificilmente, estes teriam chegado ao ponto que chegaram se não tivesse havido a caminhada das comunidades cristãs inseridas e, a partir de sua experiência, a Teologia da Libertação. A grande virada para estes movimentos se deu na década de 70 quando a missão foi compreendida não mais como um movimento de conquista de novos católicos, mas de serviço à vida e à causa dos oprimidos. Em 1968, em Medellín, os bispos católicos da América Latina, proclamaram: “Que se apresente para o continente e para o mundo o rosto de uma Igreja missionária e pascal, pobre e despojada dos meios de poder, comprometida com a libertação de toda a humanidade e de cada ser humano em todas as suas dimensões de vida” (Cf. Méd 5, 15).
Este texto que se deve à inspiração de Dom Hélder Câmara na conferência é o texto inspirador de uma nova pastoral vista como serviço social e político que deu origem às pastorais sociais de caráter profético.
Ora, atualmente, isso nos leva a ver como as Igrejas cristãs, e especialmente, a Igreja Católica tem caminhado neste processo.
O processo eclesial é complexo e diversificado. Não é justo generalizar, nem analisá-lo apenas a partir do que ocorre no Vaticano ou nas cúrias episcopais. No plano do povo de Deus, ou seja, de base, tomemos o exemplo da preparação do 12º encontro intereclesial de Cebs que ocorrerá em Porto Velho, RO, em julho de 2009. Quem, como eu, acompanhou pessoalmente a caminhada destes encontros, desde o 3º encontro (João Pessoa, 1979) e assessorou a todos desde o 6º encontro (Trindade, 1986), sabe que dificilmente uma preparação de intereclesial foi tão profunda e bem articulada como esta está sendo. Além disso, quem acompanha a pastoral afro-descendente e a pastoral índia só pode agradecer a Deus pelos encontros profundos e significativos que têm animado esta caminhada.
Não se pode negar que esta caminhada popular esteja se dando em um contexto de Igreja Católica que parece fazer de tudo para negar e anular o Concílio Vaticano II. O problema não é apenas do papa que não poupa esforços para reconduzir a Igreja ao estado pré-conciliar (se pudesse), mas de uma estrutura de poder centralizado e pouco evangélico que favorece oportunismos ideológicos e pura bajulação mundana.
No plano ecumênico, mas também no contexto católico, o grande movimento cristão do final do século XX e início deste novo século é o Pentecostalismo. Dizem que na África de cada cem cristãos, 80 já seriam pentecostais. Não sei a cifra na América Latina, mas deve ser alta, se considerarmos as Igrejas pentecostais, neo-pentecostais e os movimentos de tipo pentecostal (carismático ou de reavivamento espiritual) presente em todas as Igrejas históricas, como na Igreja Católica.
No Chile, a Assembléia de Deus e outras Igrejas pentecostais participaram ativamente da luta contra a ditadura. Entretanto, na maioria dos nossos países, a leitura fundamentalista da Bíblia (de caráter tão pouco pentecostal) e um puritanismo de tradição protestante popular têm dificultado uma postura mais crítica e transformadora das Igrejas pentecostais no mundo social e político. Por outro lado, da parte dos missionários católicos ou de Igrejas históricas falta uma formação ecumênica e pastoral para se relacionar com os pentecostais e uma omissão grave com relação a este fenômeno. Em um mundo marcado pelo Pluralismo cultural e religioso, o Macro-ecumenismo, surgido como movimento explícito na América Latina em 1992, tem oferecido uma resposta para a atuação das Igrejas no diálogo com as culturas populares e tem se constituído como elemento importante para que as Igrejas históricas se desocidentalizem mais e se tornem mais capazes de serem realmente estruturas universais. Infelizmente, poucos pastores percebem a importância deste caminho e se mostram abertos a estas mudanças.
Como nós mesmos nos colocamos em relação a esta dimensão de pastoral e missão que é serviço ao mundo? Que dimensão ecumênica tem nosso sentido de missão e nosso trabalho concreto?
Ao contrário de hierarquias fechadas em seu dogmatismo à aceitação do diferente, o processo do Fórum tem ajudado as comunidades que dele participam a viver uma ecumenicidade muito grande e de caráter espiritual. Todos os fóruns têm dado espaço a aldeias indígenas, a muitos movimentos negros, à celebrações ecumênicas leigas pela paz e a movimentações de jovens e de todos os que querem espaço de debate.
Já na Itália do inicio dos anos 90, Ernesto Balducci, filósofo de uma nova Política e profeta da paz, escrevia: “Em nossa época, a renúncia à violência, às armas e à guerra é uma imposição da consciência. Entretanto, para muitos é ainda uma exigência da realidade. É já uma contribuição para a Paz, se os discípulos da Utopia e os do realismo, ao invés de se acusarem mutuamente e se dividirem, fizerem um esforço para estar juntos no mesmo movimento e compreenderem as razões uns dos outros”(3).
Na América Latina, homens consagrados à Paz como Helder Câmara e Oscar Romero, compreenderam isso desde os anos 60 e dialogaram com os movimentos de libertação, mesmo se sempre afirmando que eram contra qualquer tipo de violência. Atualmente, o Fórum Social Mundial reúne não apenas movimentos de consciência, mas grupos e movimentos comprometidos com a transformação social e política da sociedade, muitos deles através da educação e da cultura. A nova Ética da Paz fundamenta um enorme e múltiplo movimento pela Paz, mas vai além do movimento pacifista. Estes movimentos desenvolveram como que elementos próprios de uma nova Ética e uma espiritualidade, ligada à Justiça e à Libertação de toda humanidade. Inauguram uma nova globalização a partir de baixo e do protagonismo dos pequenos.
. Um primeiro elemento desta nova espiritualidade é a fidelidade ao real. O próprio lema do FSM é “um novo mundo possível”. Este “possível” não limita a utopia, mas traça caminhos de fidelidade ao que é real. Muitas vezes, na América Latina, os grupos de esquerda perderam porque acreditavam tanto na utopia que não cuidavam suficientemente de alicerçar-se na realidade. Agora, a nova espiritualidade socialista não renuncia à utopia, mas considera prioritário o realismo.
Uma primeira constatação é a fragilidade da humanidade. Já na Eco 92, cientistas haviam declarado que, na Terra, o ser vivo mais ameaçado é a espécie humana. E, concretamente, é ameaçado pelas guerras e pela violência que assolam o mundo, mas mais ainda pela guerra permanente da fome e da injustiça que, em 1968, em Medellín, os bispos da América Latina chamaram de “injustiça estrutural”, que cada dia é responsável pela morte de milhares e milhares de crianças e inocentes. Por isso, o caminho para a Paz e a Justiça passa pela libertação desta estrutura injusta que oprime a humanidade inteira. Trata-se de uma revolução não violenta, feita a partir da espiritualidade e da valorização das diversas culturas e na qual a igualdade homem e mulher, assim como o cuidado com a natureza são elementos fundamentais deste processo de libertação e paz.
Para colocar nossa missão em estado de Fórum, é preciso rever e aprofundar nossa noção de missão. Se queremos debater a missão, mas sem rever nossa compreensão de Igreja e de mundo, não conseguiremos rever profundamente a missão. Uma visão missionária pensada a partir de uma Igreja de Cristandade nos confirma em uma perspectiva de conquista e proselitismo, contrários a uma compreensão de Fórum.
Nenhum fórum é apenas o encontro. A reunião marcada consagra um processo cotidiano que dará consistência e veracidade ao debate durante o fórum. O 2º Fórum comboniano não pode se situar atrás ou alheio ao processo de fórum, vivido por tantas entidades populares do mundo todo. Isso supõe que a congregação, ou a parte desta envolvida neste caminho entre em um processo de sinodalidade, relações democráticas e abertura permanente ao debate de todos os temas que se fizerem necessários, sem que fiquem temas-tabus que não possam ser discutidos ou aprofundados.
O Fórum na Amazônia se centrará sobre a sustentabilidade. O Fórum comboniano deverá aprofundar como vivemos isso na fé. Qual o lugar da sustentabilidade e da comunhão com a criação em nossa espiritualidade e como a expressamos. Como podemos sair deste fórum com uma visão de uma missão a partir do Pluralismo cultural e religioso e em uma perspectiva de teologia pluralista da libertação.
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(1) DUSSEL, E. Para uma Ética da Libertação Latino-americana II, Eticidade e Moralidade. São Paulo: Loyola, 1977, p. 85.
(2) OLIVEIRA, JELSON – BORGES WILTON, Ética de Gaia, Ensaios de Ética Ambiental, São Paulo, Paulus, 2008, p. 16.
(3) FLAVIO LOTTI, Un´Ispirazione per i movimenti per la Pace del nuovo secolo, in Testimonianze, 421- 422, p. 184.
Marcelo Barros, monge beneditino e autor de 30 livros, dos quais "O Espírito vem pelas Águas". Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: irmarcelobarros@uol.com.br
Marcelo Barros, monge beneditino
Junho 2008