PROCURA

VOCAÇÃO MISSIONÁRIA

OPINIÕES

PALAVRA E MISSÃO

TESTEMUNHAS

Logo Campanha Justiça nos Trilhos

Quanto mais se multiplicam guerras e se endurece o sistema econômico que assassina povos inteiros como bomba terrorista, mais se espalha pelo mundo uma rede de pessoas e grupos que se comprometem com a paz e querem transformar o mundo. A multiplicação de acidentes ecológicos revela que a natureza não suporta mais tantas agressões. Diante disso, as religiões não podem se fechar em si mesmas. Não basta restringir-se a consolar o coração dos fiéis ou cuidar apenas dos interesses institucionais internos. Os iniciadores dos diversos caminhos espirituais e os profetas aos quais as religiões se referem como se fossem seus fundadores, em geral, não fundaram uma estrutura organizativa e sim a proposta do amor solidário, da compaixão e do cuidado com a humanidade e a terra, carentes de salvação. Cada vez mais, grupos de fiéis de diversas tradições espirituais e muitos não ligados a nenhuma instituição religiosa procuram viver a espiritualidade como solidariedade e não aceitam gozar da paz interior que a religião propõe sem que o mundo inteiro seja salvo.
Desde a década de 60, a Igreja Católica Romana e as Igrejas evangélicas que pertencem ao Conselho Mundial de Igrejas têm vivido um caminho de renovação interior e do sentido de sua missão no mundo. Na América Latina, a Teologia da Libertação fortaleceu uma compreensão da Igreja cristã como serviço ao mundo. A Igreja decorrente deste modelo não procura converter ninguém à sua fé e sim colaborar com todas as pessoas de paz na construção de um mundo libertado e justo.
Neste início de século, vivemos um mundo no qual, em função do mercado, diferentes atividades humanas se associam e se integram em nível planetário. Entretanto, o progresso e bem-estar conquistados pela técnica estão a serviço de uma minoria da humanidade. Apenas 200 multinacionais detêm 80% da riqueza mundial. A Europa e América do Norte aprimoram o seu conforto à custa de um aumento terrível da miséria e da fome de mais de 2/3% da humanidade. Os governos nacionais perdem autonomia e se transformam em meros gerentes locais do Banco Mundial para garantir que os juros da dívida externa sejam pagos. A dignidade de cada ser humano e os direitos de povos são desrespeitados em função da segurança militar do Império norte-americano. Estes desequilíbrios econômicos e sociais provocam terríveis problemas ecológicos. Para servir às leis do mercado, a natureza é saqueada, envenenada e privada de sua biodiversidade. Muitas discussões sobre Desenvolvimento Sustentável lembram o que os prisioneiros políticos contam sobre as sessões de tortura em porões da ditadura militar. Um médico assistia a tortura para dizer até que ponto o doente poderia suportar os golpes sem riscos de vida. Deste modo, certas empresas que dizem ter “compromisso ecológico” atuam com relação à terra, à água e ao ar que respiramos.
Os problemas são urgentes e pedem soluções imediatas. Organismos internacionais se mostram impotentes em administrar a crise. Partidos políticos, mesmo os mais puros em seu ideário político, ao chegar ao poder, têm se mostrado iguais a seus antecessores. O divórcio cada vez maior entre Estado e Sociedade civil faz com que, mesmo os encontros e fóruns, que a humanidade tem visto ocorrer, não conseguem, ao menos por enquanto, influenciar o caminho oficial das nações. De onde pode vir a esperança? Que contribuição dão as pessoas que crêem em Deus como fonte de amor, se as religiões continuam isoladas e presas a interesses institucionais e a problemas internos?
Desde o final dos anos 80, o Conselho Mundial de Igrejas que reúne 340 Igrejas cristãs propõe um processo de diálogo entre Igrejas e um novo Concílio ecumênico, para aprofundar a responsabilidade dos cristãos com a Justiça e a Paz no mundo e a defesa da natureza. Preparando o ano 2000, 40 bispos católicos escreveram uma carta ao papa pedindo um novo Concílio. Esta carta já conta com mais de dez mil assinantes, entre ministros e leigos. Mas, nenhum papa, surgido da atual estrutura do Vaticano quererá correr este risco. Mesmo se, por um milagre divino, tal abertura se fizesse, como fazer um Concílio ecumênico ou macro-ecumênico a partir de uma iniciativa do papa que não é autoridade jurídica e centralizada (é autoridade moral) para outras Igrejas a não ser para a Igreja Católica?
Em janeiro de 2005, antes do 5o Fórum Social Mundial, aconteceu em Porto Alegre o 1º Fórum Mundial sobre Teologia e Libertação para aprofundar os fundamentos teológicos e espirituais do compromisso das religiões e Igrejas com o novo mundo possível. Em janeiro de 2007, em Nairóbi (Quênia) antes do 7º Fórum Social Mundial, ocorreu o 2º Fórum Mundial de Teologia e Libertação.
Estes fóruns têm reunido somente teólogos/as cristãos/ãs, em sua maioria católicos/as. Até aqui, não contou nem com a presença nem com o apoio explícito de representantes de muitas Igrejas. O primeiro ficou muito restrito a um exercício acadêmico. O segundo abriu-se a agentes de pastoral e teve mais do que o primeiro um caráter de fórum de discussões e debates. O 3º FMTL (Fórum Mundial de Teologia e Libertação) está em plena preparação para ocorrer em Belém antes do FSM de 2009. Como elementos de busca, é importante valorizar esta iniciativa, embora parece que ainda não se encontrou exatamente a forma para envolver a todas as pessoas e grupos espirituais em um compromisso claro com a humanidade que busca um novo mundo possível e que, em função disso, começam a renovação na própria casa e no próprio modo de viver o poder e a relação humana.   
As maiores dificuldades que as religiões têm para dialogar e se unir a serviço da humanidade vêm de fatores que nada têm a ver com Deus e espiritualidade. São questões ligadas ao poder dos seus líderes e às interpretações dogmáticas da doutrina. A espiritualidade nunca divide ninguém. Ao contrário, cria entre os seres humanos uma Fraternidade do Espírito que pode ser ponto de partida para uma aliança mundial entre todas as pessoas amantes da paz, justiça e comunhão com o universo.
Mesmo sem ainda encontros formais, o que as religiões e os caminhos espirituais parecem estar precisando é preparar e organizar um grande Fórum Mundial para uma Mística da Vida. Um fórum onde pessoas das mais diversas tradições espirituais e mesmo ateus comprometidos com a paz e a justiça se encontrem para aprofundar um caminho de serviço comum às grandes causas do planeta e da humanidade. Não me peçam para explicar mais. No século IV, dizia Santo Agostinho: “Apontem-me alguém que ame e ele sente o que estou dizendo. Dêem-me alguém que deseje, que caminhe neste deserto, alguém que tem sede e suspira pela fonte da vida. Mostre-me este e ele saberá o que quero dizer” (1).

————————————————————

(1) AGOSTINHO, Tratado sobre o Evangelho de João 26, 4. Cit. por Connaissance des Pères de l’Église32- dez. 1988, capa.

Marcelo Barros, monge beneditino e autor de 30 livros, dos quais "O Espírito vem pelas Águas". Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

- Veja os artigos anteriores -

A utopia da fé como força para curar o universo

Marcelo Barros, monge beneditino
Abril 2008